Existe uma fantasia silenciosa de que casais saudáveis querem a mesma coisa, na mesma hora, com a mesma intensidade. Nos meus anos de consultório, encontrei pouquíssimos casais assim, e mesmo esses não permaneceram assim para sempre.
Alguma diferença de desejo é a regra, não a exceção. O que faz um casal sofrer não costuma ser o tamanho dessa diferença. É o significado que cada um dá a ela.
O ciclo que se instala sem ninguém perceber
A dinâmica costuma se repetir com uma regularidade impressionante. Um dos dois procura. O outro, por qualquer razão, não está disponível naquele momento. A recusa é sentida como rejeição. Quem procurou se retrai, ou insiste com mais frequência. Quem recusou passa a se sentir cobrado, e cobrança é o que mais afasta o desejo. Então a esquiva aumenta, a insistência aumenta junto, e os dois vão parar em lados opostos da cama.
Repare que ninguém precisa ter feito nada de errado para chegar aqui. Basta que os dois interpretem o movimento do outro pelo pior ângulo possível.
O que cada um costuma estar sentindo
Quem procura mais raramente está falando só de sexo. Muitas vezes está falando de pertencimento, de confirmação de que ainda é desejado, de medo de estar sendo dispensado da vida do outro.
Quem procura menos quase nunca está rejeitando a pessoa. Está exausto, está longe do próprio corpo, está com raiva de algo não resolvido, ou simplesmente precisa de outro caminho para chegar ao desejo. Só que a recusa, dita sem contexto, chega do outro lado como "você não me quer mais".
Na maioria dos casos que atendo, os dois estão pedindo a mesma coisa, com palavras opostas: querem se sentir queridos.
Por que insistir piora
Desejo não responde bem a pressão. Quando o encontro passa a ser assunto de cobrança, ele vira tarefa, e tarefa é o contrário de desejo. Quem se sente cobrado começa a evitar até os gestos de carinho, com medo de que qualquer aproximação seja lida como promessa. Aí o casal perde também o afeto que não tinha nada a ver com sexo, e o distanciamento acelera.
É por isso que, no início do trabalho, muitas vezes proponho separar as coisas: recuperar o toque sem expectativa antes de falar de frequência. Não é técnica milagrosa, é retirar a pressão do lugar onde ela impede exatamente o que se quer.
A conversa que quase nenhum casal teve
Boa parte dos casais nunca conversou de verdade sobre o assunto. Falaram por indiretas, por brigas, por silêncios, mas não sentaram para dizer o que sentem e o que precisam. Algumas perguntas que costumam abrir esse espaço:
- o que aproximar significa para você, além do sexo em si
- o que você sente quando eu digo que não estou disponível
- em que condições você percebe que a vontade aparece
- o que a gente parou de fazer e que fazia bem para nós dois
- tem alguma coisa entre a gente, fora do quarto, que ainda não foi resolvida
A última pergunta é a que mais costuma destravar. Muita diferença de desejo é mágoa antiga em outro endereço.
Quando a diferença vira sinal de outra coisa
Nem toda diferença de desejo se resolve com conversa, e é honesto dizer isso. Vale atenção quando existe dor física envolvida, quando um dos dois vive sofrimento significativo com a própria vontade, quando há indícios de depressão ou ansiedade, quando o afastamento veio junto de uma quebra de confiança, ou quando a convivência já perdeu respeito e cuidado. Nesses casos o assunto do quarto é sintoma, e o trabalho precisa começar em outro lugar.
O que a terapia de casal faz aqui
O objetivo não é fazer os dois quererem a mesma quantidade de sexo. Isso não é possível nem desejável. O objetivo é que a diferença deixe de ser uma ameaça e volte a ser um assunto que o casal consegue conversar sem se ferir.
Na prática, significa quebrar o ciclo de insistência e esquiva, recuperar a comunicação sobre o tema, dar nome ao que cada um sente, e reconstruir a intimidade que costuma ter se perdido bem antes do sexo.
Perguntas frequentes
É normal ter diferença de desejo no casal?
É extremamente comum, e por si só não indica problema. O que costuma gerar sofrimento é o ciclo de insistência e afastamento que se forma quando o assunto não é conversado.
Vale a pena fazer sexo mesmo sem vontade, para evitar conflito?
Fazer por obrigação costuma piorar, porque associa o encontro a desconforto e aumenta a esquiva depois. Diferente disso é a pessoa se abrir para a aproximação sabendo que a vontade pode aparecer no caminho, o que é comum em quem tem desejo responsivo.
Meu parceiro se recusa a fazer terapia. Adianta eu ir sozinha?
Adianta. Quando uma pessoa muda a própria posição no ciclo, a dinâmica do casal muda junto, mesmo sem a outra estar na sala. E não é raro que o parceiro passe a considerar a ideia depois de perceber a diferença.
Quantas sessões costuma levar?
Depende do que está por trás e de há quanto tempo a situação se instalou. Não trabalho com pacote fechado nem prometo prazo, porque seria fingir uma previsibilidade que não existe.
Conversar sobre isso com uma psicóloga
Se algo aqui descreveu o que você vive, vale conversar. A primeira conversa é uma sessão de acolhimento, para entender o que está acontecendo e ver se faz sentido seguirmos juntas.
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