Uma parte grande das pessoas que me procuram começa a conversa com alguma versão da mesma frase: eu simplesmente não sinto mais vontade. Às vezes acompanhada de culpa, às vezes de medo de que o relacionamento acabe, quase sempre de uma sensação de estar quebrada por dentro.
A primeira coisa que costumo dizer é que desejo não é interruptor. Ele não liga e desliga por decisão, e não some por acaso. Quando o desejo se afasta, ele geralmente está respondendo a alguma coisa. O trabalho é descobrir a quê.
O desejo não é um traço fixo da personalidade
Existe uma ideia difundida de que a pessoa "é" de muito desejo ou "é" de pouco desejo, como quem tem olhos castanhos. Na prática clínica não é isso que aparece. O desejo varia com a fase da vida, com o nível de exaustão, com a qualidade do vínculo, com a relação que a pessoa tem com o próprio corpo e com o quanto ela se sente segura.
A mesma pessoa que hoje não sente vontade nenhuma pode ter sentido muito em outro momento, com outra pessoa, em outro contexto. Isso não a torna incoerente. Torna o desejo o que ele é: uma resposta, não uma constante.
O que costuma estar por trás
Cansaço que não é só físico
Existe um tipo de exaustão que não passa com uma noite de sono, porque ela vem de estar disponível o tempo inteiro. Quem cuida da casa, dos filhos, do trabalho e ainda da vida emocional dos outros chega ao fim do dia sem sobra de si. Desejo pede um mínimo de espaço interno, e quando não há espaço, não há desejo.
O que não foi dito na relação
Ressentimento acumulado é um dos maiores inibidores de desejo que encontro. Mágoas que nunca viraram conversa não desaparecem, elas mudam de endereço, e o quarto costuma ser um dos endereços. Não é raro que o corpo recuse antes de a pessoa perceber conscientemente o quanto está magoada.
A história de cada um com o próprio corpo
Muita gente aprendeu cedo que o corpo é motivo de vergonha, que prazer é assunto proibido ou que o desejo do outro importa mais que o próprio. Essas mensagens não somem na vida adulta, elas apenas ficam mais silenciosas. Trabalhar isso costuma abrir espaço onde antes parecia não existir nenhum.
Fatores do corpo e de saúde
Alterações hormonais, uso de certos medicamentos, dores crônicas, quadros de depressão e ansiedade, puerpério e climatério interferem de forma concreta. Por isso, sempre que o relato sugere uma causa física, o caminho é conversar também com a ginecologia ou com a medicina que acompanha o caso. Psicoterapia e cuidado médico não competem, eles se somam.
Quando o desejo some, a pergunta mais útil raramente é "o que há de errado comigo". Costuma ser "o que está acontecendo na minha vida que faz sentido o desejo ter se afastado".
Desejo espontâneo e desejo responsivo
Existe uma distinção que costuma aliviar muita gente. Algumas pessoas sentem vontade de forma espontânea, do nada, sem estímulo. Outras sentem de forma responsiva, ou seja, o desejo aparece depois que o encontro começa, a partir do afeto, do toque, da segurança.
Quem funciona de forma responsiva e acredita que deveria funcionar de forma espontânea conclui que não sente mais nada, quando na verdade está esperando o desejo chegar na ordem errada. Perceber isso muda bastante coisa, inclusive a forma como o casal se aproxima.
Quando é passageiro e quando vale procurar ajuda
Oscilações fazem parte. Semanas mais corridas, períodos de luto, mudanças grandes, tudo isso mexe com o desejo e costuma se reorganizar sozinho. O que merece atenção é outra coisa:
- quando a ausência de desejo se prolonga por meses e causa sofrimento para você, não apenas para quem está do lado
- quando vem acompanhada de culpa, ansiedade antes do encontro ou esquiva sistemática
- quando o assunto virou fonte constante de conflito no relacionamento
- quando existe dor, desconforto físico ou medo envolvido
Repare no critério: sofrimento próprio. Desejo não é obrigação, e ninguém precisa querer sentir vontade porque outra pessoa espera isso. A busca por ajuda faz sentido quando a situação incomoda você.
O que acontece na terapia
Não existe uma técnica única, porque não existe uma causa única. O trabalho costuma passar por entender a história daquela pessoa com o corpo e com o prazer, mapear o que na vida atual está ocupando todo o espaço, olhar o que a relação está pedindo e o que ela está calando, e devolver alguma escolha para quem sentiu que perdeu o controle sobre o próprio corpo.
Em muitos casos, o desejo volta não porque foi perseguido, mas porque as condições para ele existirem foram recriadas.
Perguntas frequentes
Falta de desejo tem cura?
Não trato a questão como doença a ser curada, e sim como algo que tem causas e que pode ser trabalhado. Boa parte das pessoas recupera espaço para o desejo quando o que estava no caminho é elaborado. O tempo e o resultado variam de acordo com a história de cada uma, e prometer prazo seria desonesto.
Isso é um problema hormonal ou psicológico?
Pode ser um, o outro, ou os dois juntos. Por isso, quando o relato sugere uma causa física, oriento avaliação com ginecologia ou com o médico que acompanha o caso. Os dois cuidados caminham bem lado a lado.
Preciso levar meu parceiro ou minha parceira?
Nem sempre. Muitas questões se trabalham individualmente. Quando a queixa está claramente ligada à dinâmica do casal, a terapia de casal costuma ser mais eficaz, e isso a gente conversa na primeira sessão.
Dá para fazer esse trabalho online?
Sim. Atendo online há anos, para todo o Brasil e para brasileiros no exterior. Para esse tipo de conversa, muita gente inclusive se sente mais à vontade no próprio ambiente.
Conversar sobre isso com uma psicóloga
Se algo aqui descreveu o que você vive, vale conversar. A primeira conversa é uma sessão de acolhimento, para entender o que está acontecendo e ver se faz sentido seguirmos juntas.
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